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Amanhã.
Amanhã eu sairei procurando por ele porque é domingo e ele não vai trabalhar e acho que estará em sua casa.. Faz três anos que não o vejo, mas ouvi alguém dizer que ele permanece praticamente o mesmo: não engordou nem emagreceu, não casou e está um pouco mais triste, não gosta de festas. Igual a mim.
Ainda trabalha na mesma transportadora e embora eu tenha me esforçado muito, nunca mais consegui vê-lo, nem de longe, nem de perto. Parece até que vive em outro planeta, ou que é invisível... Achei que estaria me evitando e, por pudor, nunca fui procurá-lo. Esperava que, um dia qualquer, o destino resolvesse nos colocar frente a frente e, como por acaso, e eu diria:
-Olá! Você por aqui?!
Mas durante três anos esse dia nunca chegou. Então percebi que estava cada vez mais velha e olhava já com certa desesperança para a antiga foto que tiramos na praia. Ele veste calção azul e usa boné. Eu de maiô, sim, maiô branco, e daí? Ambos sorrindo, não me lembro bem por quê , talvez apenas para sair bem na foto.
De tão manuseada, a foto já está desgastada, mais desgastada que minha esperança de reencontrá-lo.
Conheço a vila onde ele mora e sei que posso encontrar sua casa, porque naquele dia que voltamos da praia, passamos em frente da casa simples, pintada de cal branca.
Tenho certeza que vou encontrar sua casa, fica atrás de uma rua que tem um mercado na esquina. Vou ficar bem bonita de vestido novo, de rosto maquiado, de sobrancelhas feitas, de lábios vermelhos e vou usar a mesma calcinha que usei naquele dia na praia. Eu a guardei todos esses anos, após lavá-la muito bem.
Ele tinha as sobrancelhas tão espessas e tão negras que eu fiquei encantada com elas e tive vontade de passar os dedos sobre para verificar se eram de verdade.
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Mas minha mãe, que não saia de perto, pensaria o quê de mim? E se ela soubesse então onde é mesmo que eu gostaria mais de passar os dedos?! Pois se ele tinha aquelas sobrancelhas, imagine como eram os pêlos que haveria naquele lugar...
Foi meu irmão quem bateu a foto, vivia me olhando de lado, insinuando coisas, mas eu nunca permiti, nem com nenhum outro, pois tinha certeza que seria com ele.
Ele tinha as pernas bem fortes e peludas, os pés grandes e mãos também. Na praia eu olhei discretamente para o calção dele, dei uma boa olhada e quando percebi que ele havia seguido o meu olhar, fiquei muito envergonhada e até corei de vergonha. Mas só nós dois percebemos isso.
Meu pai estava ressonando deitado na esteira e minha mãe havia se voltado para tomar o refrigerante. Então aproveitei. E a imagem dele permaneceu para o resto da vida em minha imaginação.
Meu irmão zombou de mim afirmando que eu não entrava na água porque não sabia nadar , e ele se ofereceu para me ajudar. Minha mãe respondeu que eu estava gripada e cortou toda a esperança que brilhava em meus olhos.
Minha mãe conversou baixinho com meu irmão e olhou feio para nós. Meu irmão me mandou vestir-me e ficar sentada embaixo do guarda-sol, pois já estava quase na hora de regressarmos e eu obedeci.
Ele ficou de longe olhando eu botar o vestido sobre o maiô branco e mergulhou na onda, de longe me olhando, me olhando...
Na despedida, apertou respeitosamente a mão de todos. Menos a minha. Nunca soube por quê.
Meu pai, minha mãe, meu irmão, todos já se esqueceram de tudo. Mas só eu fiquei só.
Amanhã eu vou.
(Diário, Santos, 15 de junho, 1.951)